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Em 2010, eu tinha um trabalho, um salário e uma rotina que funcionava.
E uma sensação difícil de explicar: a de estar indo embora aos poucos, sem sair do lugar.
Foi nessa época que li A morte devagar, de Martha Medeiros. Muita gente atribui o texto a Pablo Neruda, mas ele é dela. O texto falava de pequenas mortes: repetir os mesmos caminhos, deixar de arriscar, continuar vivendo no automático.
Terminei a leitura e reconheci algo que vinha tentando ignorar.
Pedi demissão. Mudei de cidade. Comecei tudo de novo em outro estado.
Naquele momento, eu achava que estava escolhendo mudar. Ainda não tinha percebido que a mudança também aconteceria com tudo aquilo que eu deixava para trás.
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Voltei, e a cidade não estava mais lá

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Uma década depois, voltei a morar na cidade onde cresci.
Casas antigas tinham virado prédios. Lugares tradicionais tinham fechado. E havia o antigo trabalho: o mesmo endereço, os mesmos colegas. Mas já não era o mesmo.
Eu tinha ido embora. A vida, não.
Enquanto eu construía uma história em outro lugar, outras histórias aconteciam ali. Pessoas mudavam, negócios fechavam, relações se transformavam. Nada esperou pela minha volta.
Foi aí que percebi: eu estava fora, mas quem ficou também mudou.
A gente costuma associar mudança a uma decisão: pedir demissão, mudar de cidade, terminar uma relação, começar de novo. Mas existe uma mudança silenciosa, que acontece mesmo quando não fazemos nada.
A casa desaparece. A cidade se transforma. A pessoa que você conhecia já não é a mesma. E você também não.
Ficar parado não impede a mudança. Só tira você da decisão.
A certeza errada
Diz o ditado que a única certeza da vida é a morte.
Eu discordo.
A morte é uma certeza que costumamos empurrar para um futuro distante. A mudança, não. Ela já está acontecendo, com ou sem a nossa autorização.
Enquanto você espera o momento certo para mudar de trabalho, sua relação com ele se transforma. Enquanto adia uma conversa, a relação continua sendo construída, ou desgastada.
A mudança não é apenas o grande acontecimento que divide a vida em antes e depois. Muitas vezes, ela acontece aos poucos, sem que a gente perceba. Só reconhecemos o quanto algo mudou quando comparamos o presente com aquilo de que nos lembramos.
Não precisamos saber o que vem depois para reconhecer o que já está acontecendo agora.
O mundo não pede licença

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A gente gosta de acreditar que consegue prever o que vem pela frente. Faz planos, avalia cenários e tenta se preparar para o que pode dar errado.
Mas a vida nem sempre respeita nossos planos.
A pandemia deixou isso evidente. Em poucas semanas, mudaram o trabalho, a escola, a rotina e a forma de nos relacionarmos. Planos precisaram ser revistos. O que parecia garantido deixou de ser.
Ninguém recebeu um convite para se preparar com calma.
A vida simplesmente aconteceu.
Aceitar que a mudança é inevitável não significa gostar de todas as mudanças. Algumas trazem oportunidades; outras, perdas que jamais escolheríamos. Há transformações que iniciamos e outras que precisamos enfrentar sem ter pedido por elas.
O que podemos fazer é reconhecer a realidade e decidir como responder dentro das possibilidades que temos.
Isso não é controlar tudo. É não confundir a falta de controle com a falta de escolha.
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Mudar não é agir sem pensar
Atenção: esta newsletter não é um convite para pedir demissão amanhã.
Em 2010, eu li, senti, pensei e decidi. Havia uma história por trás daquela escolha. Minha experiência não é uma fórmula para a vida de ninguém.
Coragem e imprudência não são sinônimos. Reconhecer que tudo muda não elimina a necessidade de avaliar riscos, responsabilidades e consequências.
Mas existe uma diferença entre pensar antes de agir e esperar até que não reste nenhuma dúvida.
Coragem não é ter certeza de que tudo vai dar certo. É conseguir agir com responsabilidade mesmo sem essa garantia.
Às vezes, mudar significa partir. Em outras ocasiões, significa ficar, mas de um jeito diferente. Pode ser iniciar uma conversa, rever um compromisso, estabelecer um limite ou admitir que algo deixou de fazer sentido.
Nem toda mudança precisa ser um salto. Algumas começam com um passo pequeno, planejado e possível.
A pergunta não é se você deve mudar tudo agora. É se está escolhendo conscientemente o que fazer ou apenas deixando que o medo escolha por você.
Se você é hiperpensante
Nas últimas edições, falei de ciclos que terminam e de um futuro que não nos deve garantias.
Existe um fio que conecta esses assuntos: a vontade de obter garantias antes de dar o próximo passo.
Se você pensa demais, talvez conheça esse mecanismo. Analisa cenários, antecipa problemas e revisa possibilidades. Quer tomar uma boa decisão, mas continua procurando a segurança que ainda não chegou.
Pensar é importante. O problema começa quando a preparação passa a substituir a decisão.
Você pode passar meses tentando descobrir se é a hora certa de mudar, como se a vida fosse permanecer intacta enquanto você avalia as opções.
Mas permanecer também tem consequências.
Isso não significa que você precisa agir agora. Você pode escolher ficar ou decidir esperar. O importante é reconhecer se essa escolha faz sentido ou se é apenas uma maneira de evitar a incerteza.
Você não precisa de garantia de que tudo dará certo. Precisa reconhecer que não decidir também tem um custo.
Um exercício de 24 horas

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Escolha uma coisa que você trata como permanente: um trabalho, uma rotina, um lugar ou uma relação.
Não precisa ser algo ruim. Basta ser algo que você raramente questiona.
Nas próximas 24 horas, responda:
1. O que já mudou nisso sem que eu percebesse?
Observe o que mudou em você, nas circunstâncias ou na maneira como essa situação funciona hoje.
2. Se eu aceitasse que nada permanece igual para sempre, o que faria diferente nesta semana?
Não procure uma revolução. Procure uma possibilidade concreta.
3. Qual é o menor passo na direção que eu escolho?
Defina o passo e a data. Algo que você possa realmente fazer, não apenas continuar pensando.
Talvez você descubra que quer continuar exatamente onde está. Ótimo. Ficar também pode ser uma escolha.
Ou talvez perceba que está esperando uma certeza que nunca virá.
A mudança já está acontecendo
Quando voltei à minha cidade, não pude recuperar a cidade que existia na minha memória. Ela havia seguido em frente enquanto eu seguia a minha vida.
Não pude escolher as transformações que aconteceram durante a minha ausência. Mas pude compreender o que elas significavam.
A vida muda quando vamos embora. Muda quando ficamos. Muda quando estamos preparados e quando não estamos.
A morte pode ser a certeza que mais nos impressiona. Mas ela é só mais uma mudança.
Já que a mudança vai acontecer, de quais partes dela você quer participar por escolha?
Se esta reflexão fez você pensar em alguém que também precisa lê-la, compartilhe esta edição.
Obrigada por chegar até aqui!
Confira os destaques abaixo.
Excelente semana!
O medo fala. A coragem escuta.
Viver com medo também é um ato de coragem.
Forte abraço,

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✍️ Escrita por Lúcia Madeira compartilhando experiências e histórias ao redor dos temas: Autenticidade, Vulnerabilidade e Coragem.



