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Escrevi essa edição ouvindo Brent Morgan - Gonna Be Okay

Imagem criada com Inteligência Artificial (IA)
Passei as últimas semanas tentando resolver problemas que ainda não existiam.
Sinais concretos me mostravam que coisas ruins viriam. E o meu cérebro fez aquilo que ele sabe fazer muito bem, quando não consegue controlar o que vem pela frente: preencher o silêncio com catástrofes.
Imaginei conversas que ainda não tinham acontecido.
Antecipei perdas que talvez nunca viessem.
Repassei situações procurando sinais que eu nem sabia se estavam lá.
E quanto mais eu pensava, mais convincente tudo parecia.
Esse é o problema de pensar demais: uma hipótese, depois de repetida muitas vezes dentro da cabeça, começa a ganhar a textura de um fato.
Você sabe que não aconteceu. Mas o corpo reage como se tivesse acontecido, fica tenso(a), perde o sono.
Tenta encontrar uma saída para uma situação que ainda nem chegou.
Eu conheço bem esse lugar.
Há algumas semanas, escrevi sobre isso em “Quando eu fico sem chão, eu ganho asas”.
Naquela edição, falei sobre o que acontece quando a vida tira debaixo dos nossos pés aquilo que parecia seguro, e sobre descobrir que, às vezes, aquilo que parece uma queda pode ser o começo de um voo.
Neste mês, percebi que existe uma continuação para aquela história.
Porque mesmo depois de aprender a voar, existe uma coisa que continua fora do nosso controle: a visibilidade.
Alguns dias depois, eu estava dentro de um avião.
Lá fora, não havia horizonte, só nuvens.
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A tempestade não era o céu inteiro

Arquivo pessoal - setembro 2026
O avião tremia de vez em quando. Olhei pela janela.
Não dava para ver nada além daquela massa cinzenta.
E foi estranho perceber como minha cabeça fez exatamente o que vinha fazendo havia dias: olhou para algo que não conseguia enxergar e começou a preencher os espaços.
O medo faz isso.
A falta de informação vira espaço para imaginação. E uma imaginação assustada raramente escolhe o melhor cenário.
Mas então o avião subiu. Aos poucos, atravessamos as nuvens.
E aconteceu uma coisa que eu já sabia, mas tinha esquecido: o céu não tinha desaparecido. Eu só estava abaixo dele.
Acima das nuvens havia um silêncio quase absurdo. Um mar branco, iluminado pelo sol.
Fiquei alguns minutos olhando pela janela.
A turbulência era real. As nuvens eram reais. O céu cinzento era real. Mas aquilo não era tudo. A tempestade não era o céu inteiro.
Naquele momento, gravei um vídeo.
Não porque tivesse encontrado uma resposta para o que estava vivendo.
Gravei porque precisava registrar aquela imagem antes que meu cérebro voltasse a esquecer.
Meu cérebro transformou o silêncio em perigo

Imagem criada com Inteligência Artificial (IA)
O problema é que meu cérebro não parece ter visto aquele vídeo.
Quando alguma coisa foge do meu controle, ele tenta recuperar o controle imaginando o que pode acontecer. E ele é bom nisso.
Uma conversa ainda nem aconteceu, e eu já consigo imaginar cinco versões dela.
Uma decisão ainda não foi tomada, e minha cabeça já percorreu todas as consequências. Uma dúvida basta. E pronto.
Meu cérebro pega uma possibilidade e começa a tratá-la como previsão.
Se pode acontecer, então precisa ser considerado.
Se precisa ser considerado, preciso me preparar.
Se preciso me preparar, preciso pensar mais.
E, quando percebo, estou sofrendo por uma coisa que ainda não aconteceu.
O mais perverso é que isso parece responsabilidade, prudência e proteção.
Mas existe uma diferença enorme entre estar preparado para uma possibilidade e viver como se ela já fosse realidade.
Posso reconhecer que algo pode dar errado sem passar o dia inteiro morando dentro desse “e se?”. Posso admitir que não tenho controle sobre o desfecho sem transformar a incerteza em uma sentença.
O fato de eu não conseguir ver o que vem depois não significa que só exista o pior cenário.
Eu não sei como isso vai terminar

Imagem criada com Inteligência Artificial (IA)
Essa foi a parte mais difícil de aceitar: eu não sei como isso vai terminar.
E não existe pensamento capaz de mudar esse fato.
Posso analisar mais uma vez, prever todas as possibilidades, tentar encontrar uma explicação que pareça segura.
No fim, algumas coisas só podem ser descobertas quando acontecem.
Existe uma parte de mim que gostaria de receber garantias antes de continuar. Só que a vida não funciona assim. Coragem não é acreditar que tudo vai dar certo.
É conseguir dizer: “Eu não sei.”
E depois: “Mesmo assim, eu vou.”
Não estou tentando convencer a mim mesmo de que a tempestade não existe. Ela existe.
Não estou fingindo que não posso perder. Posso.
Não estou dizendo que o futuro vai me poupar. Ele não prometeu isso.
Estou apenas me recusando a sofrer hoje por todas as versões de amanhã.
Isso muda alguma coisa.
Quando paramos de exigir garantias do futuro, o presente fica mais leve.
A confiança que estou tentando construir não é a de que o caminho será seguro. É a de que eu posso continuar mesmo quando não consigo enxergar o caminho inteiro.
Não entregue exclusividade ao pior
Tem uma coisa curiosa sobre quem pensa demais: a gente não costuma ter dificuldade para imaginar o pior. O problema é imaginar qualquer outra coisa.
Se existe uma chance de dar errado, nossa cabeça trabalha horas extras.
Encontra problemas dentro de problemas.
Mas experimente perguntar: “E se der certo?”
De repente, aparece o freio.
“Não quero criar expectativas.”
“Melhor não pensar nisso.”
“Vai que eu me iludo.”
É uma matemática curiosa: ao pior cenário, damos liberdade. Ao melhor, pedimos autorização.
Não precisamos substituir o pior por um final feliz.
Precisamos apenas lembrar que ele não é o único cenário possível.
Quando o pensamento vier
Na próxima vez que perceber sua cabeça construindo uma catástrofe, pare por alguns segundos e pergunte: “Isso é um fato ou uma previsão?”
Se for um fato, lide com o fato.
Se for uma previsão, não trate como realidade.
Depois, faça uma segunda pergunta: “Que outra coisa também poderia acontecer?”
Não precisa ser o cenário que você gostaria. Precisa apenas ser possível.
Esse é o exercício que estou tentando praticar: não pensar menos. Pensar com mais possibilidades.
Agora estou aprendendo a deixar o espaço existir.
A dizer: “Um dia de cada vez!”
E não completar a frase.
Não sei o que vai acontecer.
Não sei como essa história termina.
Não sei se vai ser fácil. Mas ainda não aconteceu.
O futuro não me deve garantias

Imagem criada com Inteligência Artificial (IA)
No fim, eu passei quase um mês sofrendo antecipadamente por uma coisa ruim que não se confirmou. Me preparei, ajustei rotas, esperando o pior, mas o sol apareceu no horizonte.
E aprendi que depois que você ganha asas, ainda pode haver nuvens. E tudo bem.
Você não precisa enxergar o caminho inteiro para continuar voando.
Precisa lembrar que aquilo que consegue ver agora não é tudo o que existe.
Porque, às vezes, estamos tão ocupados olhando para a nuvem que esquecemos do céu.
E o sol?
O sol não precisa aparecer para continuar lá. Você só precisa lembrar disso quando não conseguir vê-lo.
Se você está passando por uma dessas fases, talvez não precise de uma resposta, mas apenas de um pouco de espaço entre o que aconteceu e aquilo que sua cabeça está dizendo que vai acontecer.
Você ainda não sabe como essa história termina.
E isso, apesar de assustador, também significa uma coisa: o pior final ainda não aconteceu.
Se este texto encontrou você no meio de uma tempestade, compartilhe com alguém que esteja precisando lembrar que aquilo que consegue enxergar agora não é tudo o que existe.
Obrigada por chegar até aqui!
Confira os destaques abaixo.
Excelente semana!
O medo fala. A coragem escuta.
Viver com medo também é um ato de coragem.
Forte abraço,

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✍️ Escrita por Lúcia Madeira compartilhando experiências e histórias ao redor dos temas: Autenticidade, Vulnerabilidade e Coragem.


