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Escrevi essa edição ouvindo Seph Schlueter - Stay

Lúcia Madeira - Itu - SP - Arquivo Pessoal - 2012

Em 7 de outubro de 2012, eu descobri que talvez uma das coisas mais assustadoras da vida não seja cair.

É ficar sem chão.

Eu já tinha feito arvorismo e rapel. Em 2011, fui até a Pedra da Gávea, no Rio de Janeiro, para fazer o passeio.

Mas, na hora, não tive coragem.

Voltei para casa com uma sensação que doeu mais do que eu gostaria de admitir: eu me senti fracassada.

Não porque alguém tivesse dito que eu era covarde.

Eu mesma disse.

E foi com essa história dentro de mim que, um ano depois, entrei em um balão.

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O medo de perder o controle

Eu poderia imaginar que, depois de arvorismo, e do rapel, um voo de balão seria tranquilo.

Não foi.

Foi uma das vezes em que senti mais medo na vida.

E, curiosamente, quando comparo com o paraquedas, em 2015, o balão ainda me parece pior.

Porque no paraquedas existe uma lógica que meu cérebro consegue entender: você salta, cai e existe um equipamento feito para abrir.

No balão, existe outra coisa.

O chão simplesmente vai embora.

Você começa a subir e, de repente, aquilo que estava debaixo dos seus pés está cada vez mais longe.

Casas diminuem.

Pessoas viram pontos.

As coisas que pareciam enormes ficam pequenas.

E você percebe, de um jeito muito concreto, que não está no controle.

Talvez por isso aquele voo tenha ficado tanto tempo na minha memória.

Porque existem momentos na vida em que o chão também desaparece.

Você acorda e ainda tem um chão.

Um relacionamento.

Um trabalho.

Seus planos.

A rotina que você conhece.

A sensação de que sabe para onde está indo.

Até que alguma coisa acontece.

E aquilo que parecia sólido começa a desaparecer.

Quando a vida tira o chão

Lúcia Madeira - Itu - SP - Arquivo Pessoal - 2012

Para quem pensa demais, perder o controle pode ser especialmente assustador.

A mente tenta negociar com o futuro o tempo inteiro.

“E se acontecer isso?”

“E se eu fizer aquilo?”

“E se der errado?”

“E se eu não conseguir?”

A gente tenta antecipar todas as possibilidades para nunca ser pego de surpresa.

Só que a vida não assina esse contrato.

Ela não promete que vamos prever o próximo capítulo.

Às vezes, simplesmente tira o chão.

E, quando isso acontece, a primeira reação costuma ser tentar recuperá-lo imediatamente.

Entender. Explicar. Consertar. Voltar atrás. Controlar.

Qualquer coisa que faça aquela sensação de desamparo desaparecer.

Eu entendo.

Porque estar sem chão dá a impressão de que estamos caindo.

Mas existe uma coisa que aquele balão me ensinou: nem tudo que parece queda é queda.

Às vezes, é voo.

O fracasso não virou identidade

Lúcia Madeira - Itu - SP - Arquivo Pessoal - 2012

Talvez o mais importante naquela história não tenha sido o balão.

Talvez tenha sido a Pedra da Gávea.

Em 2011, eu cheguei até lá.

Mas não fiz o passeio.

Eu tive medo.

E, naquele momento, transformei uma decisão em uma definição sobre mim mesma.

“Eu não consegui.”

“Eu fui covarde.”

“Eu fracassei.”

É impressionante como fazemos isso.

Uma experiência ruim vira identidade.

Uma demissão vira “eu sou incompetente”.

Um relacionamento que terminou vira “eu não sei amar”.

Uma crise financeira vira “eu nunca vou conseguir”.

Um fracasso vira uma sentença.

Mas não deveria.

Você pode ter fracassado em alguma coisa sem ser um fracassado(a).

Pode ter recuado, desistido, errado.

Pode ter escolhido mal e ter tido medo.

E ainda assim continuar sendo alguém capaz de tentar outra vez.

Um ano depois da Pedra da Gávea, eu estava dentro daquele balão.

Não porque o medo tinha desaparecido.

Mas porque eu descobri que coragem não exige ausência de medo.

Às vezes, coragem é simplesmente não deixar o medo escrever o último capítulo.

Talvez você esteja voando

Itu - SP - Arquivo Pessoal - 2012

Penso nisso quando vejo alguém perder o chão.

Talvez tenha terminado um relacionamento.

Talvez esteja procurando trabalho.

Talvez esteja olhando para a própria vida e pensando:

“Eu não faço ideia do que vai acontecer agora.”

Eu queria poder dizer que existe uma fórmula para recuperar o controle.

Não existe.

E talvez essa seja a verdade mais desconfortável, e mais libertadora.

Você não precisa recuperar o chão para continuar.

Algumas vezes, a vida não devolve exatamente aquilo que levou.

O relacionamento pode não voltar.

O emprego pode não voltar.

A versão antiga de você não volta.

A certeza pode demorar ainda mais.

Mas isso não significa que acabou.

Significa que você está em um lugar que ainda não aprendeu a chamar de casa.

No balão, eu não controlava o vento.

Não controlava a altura.

Não controlava exatamente para onde iria.

Mas eu estava voando.

E talvez seja isso que a gente esquece quando a vida desaba.

A ausência de controle não é necessariamente ausência de direção.

Você ainda pode escolher o próximo movimento.

Ainda pode respirar, pedir ajuda, recomeçar.

Ainda pode construir uma vida que, neste momento, você sequer consegue imaginar.

A pergunta para esta semana

Um brinde! - Itu - SP - Arquivo Pessoal - 2012
(Obrigada aos que toparam perder o chão comigo) 😍🥰😘

Se você está sem chão hoje, não tente resolver a vida inteira.

Faça uma coisa.

Pegue um papel e divida em duas partes.

De um lado, escreva:

O que eu não controlo?”

Coloque ali tudo o que você está tentando desesperadamente controlar.

A decisão de outra pessoa.

O passado.

O que alguém pensa de você.

O tempo que uma resposta vai levar.

Do outro lado, escreva:

O que ainda está nas minhas mãos?”

Talvez seja pouco.

Tudo bem.

Pode ser mandar uma mensagem.

Organizar uma conta.

Pedir ajuda.

Não precisa ser um salto.

Só precisa ser um movimento.

Porque talvez coragem não seja ter certeza de que existe chão.

Talvez coragem seja olhar para o vazio, respirar fundo e descobrir: quando eu fico sem chão, eu ganho asas.

Se você conhece uma pessoa que está vivendo esse momento, compartilhe esta newsletter com ela.

Talvez ela só precise lembrar que perder o chão não significa perder a capacidade de voar.

Obrigada por chegar até aqui!
Confira os destaques abaixo.
Excelente semana!

O medo fala. A coragem escuta.
Viver com medo também é um ato de coragem.

Forte abraço,

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️ Escrita por Lúcia Madeira compartilhando experiências e histórias ao redor dos temas: Autenticidade, Vulnerabilidade e Coragem.

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