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🎧Escrevi essa edição ouvindo O Tempo não espera ninguém de Michel Teló, mas poderia ter sido Como uma onda de Lulu Santos

Arquivo pessoal - Torres/RS - Setembro 2026
Eu estava no meio do mar, em cima de uma prancha, sem saber muito bem o que estava fazendo.
A próxima onda vinha. Eu olhei para ela. E pensei em todas as maneiras possíveis de aquilo dar errado.
Eu poderia cair.
Beber água.
Ser arrastada pela prancha.
Tomar um caldo daqueles que fazem você esquecer por alguns segundos onde fica o céu.
E tinha um detalhe: eu estava ali para aprender a surfar.
Era minha primeira aula.
Eu sei nadar. Mas não sou exatamente uma pessoa que nada bem. A água me cansa rápido. Sempre gostei mais de observar o mar do que entrar nele.
Mesmo assim, naquele dia, eu tinha decidido entrar.
Ainda é inverno, mas o dia parecia ter sido emprestado do verão: sol, poucas nuvens e pouco vento.
Eu escolhi um professor muito experiente. Antes de entrarmos na água, passamos um tempo na areia aprendendo os fundamentos.
E eu já estava cansada.
Foi quando ele disse uma frase que eu não esperava ouvir:
“No surfe, você precisa ser rápida e se movimentar. Estar preparada para a instabilidade.
Na praia é estável. No mar é instável.”
Naquele momento, eu ainda achava que ele estava falando sobre surfe.
Hoje, acho que estava falando sobre a vida.
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A vida não acontece na areia

Arquivo pessoal - Torres/RS - Setembro 2026
Na areia, tudo parece mais fácil.
Você entende onde pisa. O chão está parado. Seu corpo sabe o que fazer.
No mar, não.
A prancha se move. A água se move. Você se move.
Se ficar esperando a estabilidade antes de agir, provavelmente vai perder a onda.
Isso me fez pensar em quantas vezes fazemos o mesmo com a vida.
Queremos entender tudo antes de começar.
Queremos segurança antes da mudança.
Queremos garantias antes do recomeço.
Só que alguns ciclos acabam sem pedir licença.
Um trabalho termina.
Uma relação muda.
Uma versão nossa deixa de caber.
Um projeto chega ao fim.
E, de repente, estamos diante de uma água que não conhecemos.
A gente olha para o mar e pensa: “Quando eu estiver pronta(o), eu entro.”
Só que a vida não funciona assim.
Minha cabeça estava rápida. O vídeo discordou.
Uma das coisas mais interessantes da aula aconteceu depois.
Eu tinha a sensação de estar fazendo tudo rápido. Muito rápido.
Na minha cabeça, eu estava ágil.
Via a onda chegando, me movimentava, tentava levantar, ajustava o corpo, equilibrava a prancha...
Até assistir ao vídeo.
Na realidade? Eu estava lenta.
Muito mais lenta do que imaginava.
Foi quase engraçado.
Mas também foi uma pequena aula sobre presença.
Existe uma diferença enorme entre sentir que estamos fazendo algo e perceber o que realmente está acontecendo.
A cabeça cria uma narrativa. O corpo conta outra.
E os dois nem sempre estão sincronizados.
Quantas vezes achamos que estamos mudando, quando ainda estamos hesitando?
Ou que estamos vivendo o presente, quando passamos o tempo inteiro antecipando o próximo problema?
Talvez esse seja um dos perigos de pensar demais.
A gente passa tanto tempo simulando possibilidades que esquece de prestar atenção no que está acontecendo agora.
Na onda.
Coragem também é saber cair

Arquivo pessoal - Torres/RS - Setembro 2026
Eu descobri outra coisa importante: Surfar é aprender a se movimentar dentro de algo que você não controla.
Antes de entrar, aprendi os pontos de segurança, como posicionar o corpo, como subir na prancha e como cair.
Eu estava com um profissional experiente.
Tinha prestado atenção.
Estava ali.
Isso não eliminava a possibilidade de cair.
Só fazia com que eu estivesse mais preparada para quando a queda acontecesse.
E talvez exista uma diferença importante entre coragem e imprudência.
Coragem não exige que o medo desapareça.
Ela começa quando você reconhece o risco, aprende o que está ao seu alcance e aceita que existe uma parte que não depende de você.
Porque chega uma hora em que é preciso soltar.
Subir na prancha. Encontrar o equilíbrio. E ir.
“Solta a prancha” ele gritava e eu não soltava.
O fato é: Nós vamos cair, beber água, levantar errado, perder a onda. E vamos pegar outra.
Não precisamos acertar a primeira.
Precisamos continuar presentes para a próxima.
Não, eu não contei quantas vezes cai, foram várias, e o professor sempre estava ‘mandando’ continuar.
“Sobe de novo” ele dizia. E eu nem questionava.
Por que será que não fazemos assim na vida?
Esperar o melhor. Preparar-se para o pior. Aceitar o que vier.

Arquivo pessoal - Torres/RS - Setembro 2026
Existe uma frase atribuída a uma filosofia chinesa que diz:
“Espere o melhor, prepare-se para o pior e aceite o que vier.”
Depois de entrar no mar, ela ganhou outro sentido para mim.
Esperar o melhor é entrar na água sem transformar o medo em destino.
Preparar-se para o pior é conhecer os riscos, os limites e o que fazer quando algo sair do plano.
E aceitar o que vier talvez seja a parte mais difícil.
Porque aceitar não significa desistir.
Significa parar de gastar energia tentando negociar com uma realidade que já aconteceu.
A onda veio. Você caiu.
Tudo bem. Levanta.
Tem outra vindo.
Um ano entrando no mar
Percebi que em setembro, a Dose de Coragem está completando um ano.
E talvez não exista metáfora melhor para esse momento do que entrar no mar pela primeira vez.
Há um ano, eu também não sabia exatamente onde essa jornada iria dar.
Havia planos.
Expectativas.
Medos.
E muita coisa aconteceu de um jeito completamente diferente do que eu imaginava.
No primeiro texto, escrevi que recomeçar é renascer.
Hoje, penso que recomeçar também pode ser aprender a surfar.
Você não precisa esperar o mar ficar parado.
Precisa aprender a se mover quando ele se mexer.
Ciclos terminam. Outros começam.
O tempo não espera ninguém e passa.
E a onda também.
Às vezes ela vem pequena, às vezes vem grande demais, às vezes você perde.
Às vezes consegue ficar de pé por alguns segundos e pensa:
“Caramba. Eu consegui.”
E então cai de novo.
Mas agora você sabe uma coisa que não sabia antes: você consegue levantar.
Talvez coragem seja isso.
Não saber exatamente o que vem, mas confiar que você consegue responder quando vier.
E talvez seja essa a lição que eu quero levar para o próximo ano da Dose de Coragem: não preciso ter todas as respostas antes de entrar na água.
Preciso estar presente o suficiente para perceber a próxima onda.
E ter coragem para tentar.
Se você está vivendo um fim, um começo ou aquele meio confuso em que ainda não sabe exatamente para onde está indo, me chama no WhatsApp. Vamos conversar.
Talvez você não precise de todas as respostas.
Talvez precise apenas de coragem suficiente para entrar na água.
Obrigada por chegar até aqui!
Confira os destaques abaixo.
Excelente semana!
O medo fala. A coragem escuta.
Viver com medo também é um ato de coragem.
Forte abraço,

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✍️ Escrita por Lúcia Madeira compartilhando experiências e histórias ao redor dos temas: Autenticidade, Vulnerabilidade e Coragem.



